Uma das coisas que mais me perguntam nos mails que me enviam é "tenho um blog, como é que posso ter muitos leitores/ganhar dinheiro com ele/ fazer com que seja conhecido?". Nunca respondi a nenhum destes mails, essencialmente por não saber o que dizer. Quando criei o meu blog, não tinha nenhuma espécie de ambição com ele. Basicamente, queria escrever as minhas parvoíces, fosse sobre o que fosse. Tinha começado a trabalhar como jornalista e percebi logo que não ia ser possível escrever o que quisesse e no estilo que quisesse. E como os blogs estavam a dar os primeiros passos em Portugal (na altura achei que era o boom, mas afinal faltava muito), encontrei ali uma boa (e fácil) plataforma para os meus devaneios. Pouca gente ligava a blogs nessa altura. Não havia interesse nenhum da imprensa, menos ainda das marcas. Não sei quantos leitores tinha por dia (só instalei o contador de visitas uns quatro anos depois), só me guiava pelos comentários deixados. Que foram crescendo. Deixou de ser um blog para amigos e passou a ser para amigos de amigos. E depois para amigos-de-amigos-de-amigos. Ao longo destes oito anos o blog passou por altos e baixos. Alturas em que me apetecia escrever 27 vezes por dia (e escrevia), e alturas em que perdia a paciência e me apetecia mandar tudo para o diabo. Acho que ainda encerrei o blog umas duas vezes, mas nunca fui além dos três ou quatro dias. Para quem, como eu, criou um blog para escrever, é difícil fechar portas. Sente-se a falta. E durante os primeiros tempos, quando tinha total liberdade de escrita (porque agora cai o Carmo e a Trindade se vem de lá uma piada mais hardcore ou uma opinião mais polémica), o blog divertia-me mesmo muito. Não que agora não me dê prazer. Dá, continua a dar. É apenas diferente. Mas dizia eu que o blog foi crescendo do nada. Ninguém sabia quem eu era, ninguém me conhecia a cara e, durante alguns anos, nem o meu nome era conhecido. Mas, mesmo assim, foi crescendo. E chegaram cada vez mais leitores. Em 2008 veio o convite para escrever um livro, e com ele o boom do blog. Não fui a primeira blogger a lançar um livro (assim de repente, lembro-me da Sissi e da Rititi), mas gerou-se algum buzz à volta disso. E quem ainda não me conhecia, passou a saber o meu nome e a conhecer a minha cara. E com a publicidade vieram mais leitores. Ao mesmo tempo, iam aparecendo cada vez mais e mais blogs. Arrisco dizer que, hoje em dia, toda a gente tem um blog. O que não é uma coisa má. Eu sou uma má blogger, porque só leio meia dúzia de blogs por dia, é raro deixar comentários e quando me indicam um blog qualquer nunca sei do que é que estão a falar. Mas sem dúvida que os blogs têm um papel importante. Puseram as pessoas a escrever e a ler mais, independentemente daquilo que escrevem e daquilo que lêem. Há blogs para todos os gostos (o que me faz sempre perguntar porque é que tanta gente que perde tempo a ler blogs que odeia) e uma dinâmica interessante em torno disso. Agora... criar um blog para ter sucesso e ganhar dinheiro? Isso, sinceramente, não sei como se faz. Porque não criei o meu blog para isso. Não nos façamos de sonsos: um blog com muitos leitores atrai coisas boas (e más, ui, tantas coisas más). E, para além do prazer da escrita e da partilha, ter um blog proporcionou-me, efectivamente, coisas boas: amigos, um livro, uma marca, propostas de trabalho, presentes (mas não tantos como os que se pensa), viagens, experiências únicas, e, claro, até dinheiro. Fui aproveitando algumas oportunidades que me pareceram interessantes (para mim e para os leitores), mas declinei outras tantas. Já disse muitas vezes não a coisas que não me pareciam minimamente relevantes, independentemente de ter perdido algumas contrapartidas pelo caminho. C'est la vie! Muita gente diz que este blog está pejado de publicidade quando, 97% das vezes, estou apenas a falar de coisas que gosto e acho giras (sem receber NADINHA por isso). E abro outros blogs e estão carregadinhos dos press releases que as marcas enviam todos os dias, um copy paste puro e duro. Nada contra, cada um tem os seus critérios editoriais. Eu falo daquilo que gosto. E podem ter a certeza que nunca aqui recomendei nada em que não acreditasse (houvesse ou não contrapartidas envolvidas). Porque, para mim, só faz sentido se for assim. E porque este continua a ser um blog pessoal. Não é um blog de beleza, nem de moda, nem de desporto, nem de cinema. É um blog que fala dessas coisas todas. E acho que é precisamente por ser um blog mainstream e transversal que acaba por criar empatia. É o blog de uma pessoa normal escrito para pessoas normais (e agora pareço a Julia Roberts em frente ao Hugh Grant, no Notting Hill, a dizer "'im just a girl standing in front of a boy asking him to love her"). Há quem não entenda porque é que um blog (este blog) é "conhecido". E porque é que a autora recebe um ou outro presente. Ou tem banners de publicidade. E convites para isto ou para aquilo. Mas vão lá tentar manter um blog durante oito anos. Tentar com que se mantenha interessante. Tentar agradar a gregos e a troianos. Tentar contar até 1030 para não mandar à merda diariamente os muitos idiotas que aqui vêm destilar ódio e frustrações (já agora, vão à merda). Tentar escrever todos os dias. Mais do que uma vez ao dia. Ao fim-de-semana, nas férias, nos feriados. E, no meio disto tudo, tentar não perder a essência. E não esquecer porque é que se começou. Não há truques para um blog ser conhecido. Tirando o facto de que, nos dias que correm, facilmente se lança um blog e se faz com que seja conhecido. Mas depois falta o resto. Que é aguentar. E mantê-lo. E ter prazer com isso. Porque se for só uma obrigação, um meio para se atingir um fim (sapatos, perfumes, sucesso), então podem esquecer. Começam a fartar-se, a perder a paciência para as coisas chatas (que as há, e quanto mais conhecido o blog, maiores as chatices), e ao fim de meio ano o blog já era. Gosto de ser blogger. Gosto mesmo muito de ser blogger. E de mandar nesta barraca há mais de oito anos. Ah, e tal, é tão fácil ter um blog, qualquer um tem. Verdade, verdadinha. Aguentá-lo é que é mais difícil. Por isso, não comecem um blog só para receberem uma mala e um creme de corpo (a quantidade de marcas que me diz que recebe mails de bloggers a pedirem produtos grátis é impressionante). Comecem um blog porque acreditam que têm alguma coisa a dizer ao mundo (não importa se é sobre o vosso gato, os progressos escolares dos vossos filhos ou a vossa tara por sapatos). Há sempre espaço para mais um. E se, pelo meio, conseguirem coisas boas, então espectacular. Não pensem é que este é o caminho mais fácil para atingirem um fim. Porque, muitas vezes, o caminho não é mesmo nada fácil.
(6000 caracteres em meia-hora. E lembrei-me, uma vez mais, porque é que adoro ter um blog).